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Produção cinematográfica local nas décadas de 1960 e 1970

Autor: Fernando C. Boppré

Os filmes Novelo, de 1968, Via Crucis, de 1972 e Olaria, de 1976 não participaram da história da cinematografia catarinense. Não tomam parte de sua tradição como, por exemplo, O Preço da Ilusão, rodado pelos modernistas do Grupo Sul em fins da década de 1950.
Estão relegados, por assim dizer, a uma espécie de limbo histórico. Não se deve, contudo, considerar mera coincidência o silêncio em torno destas produções: o fato é que elas apresentam uma poética e uma temática que não estabelecem uma continuidade com a tradição cinematográfica predominante nos dias de hoje: não tratam de caracterizar ou reforçar identidades locais, mas sim de propor uma visão mais ampla acerca de questões universais como, por exemplo, a crise do sujeito perante a civilização ocidental.

Não por acaso, o principal estudo sobre estes filmes não surgiu dos cursos de Cinema ou de Jornalismo, mas sim do curso de História da Universidade Federal de Santa Catarina. O trabalho de conclusão de curso de Sissi Valente, intitulado “Novelo, Via-Crucis e Olaria: experiências cinematográficas na Florianópolis das décadas de 1960 e 1970”, é um esforço de síntese do material reunido ao longo de mais de dois anos de pesquisa junto à equipe do Laboratório de Pesquisa e Imagem do Som (LAPIS) que registrou em vídeo os depoimentos de Pedro Paulo Souza (diretor de Novelo), Pedro Bertolino (autor do argumento de Novelo e Via-Crucis), Nelson Machado dos Santos (diretor de Via-Crucis e Olaria), Ady Vieira (produtor e ator de Novelo) e Gilberto Gerlach (diretor de fotografia de Novelo) e Orivaldo .    A partir da análise dos filmes, das entrevistas cedidas pelos realizadores, além dos roteiros e demais materiais por eles cedidos, foi possível traçar algumas questões centrais para a compreensão do que estava em jogo na concepção e na produção destas películas 16mm. Em primeiro lugar, destaca-se a predominância de um pensamento acerca do local numa estreita relação com o universal, numa dialética cujos resultados são, sem dúvida alguma, ainda hoje, os mais ousados da produção cinematográfica catarinense.

Além disso, os filmes compõem testemunhos de um momento específico da história de Florianópolis que, naquele período, passava por um processo acelerado de urbanização, incluindo a verticalização do Centro da cidade. Por fim, cabe assinalar que as sofisticadas experimentações de linguagem cinematográfica aliavam-se a um conteúdo de caráter crítico sobre o meio social do período (incluindo aqui os impasses com a censura que os filmes tiveram que lidar). Foi decisiva ainda a influência do existencialismo (em Novelo) e o marxismo (em Via-Crucis e Olaria).
   
Novelo

No caso do filme Novelo o protagonista interpretado por Fernando José entra em crise ao deparar-se com a seguinte frase de Heidegger: “Os valores não são, eles valem”. Após livrar-se da religião e da família, caminha por um longo corredor até deparar-se com uma lâmina de barbear (metáfora precisa do corte, conceito fundamental tanto para se entender a época quanto o próprio cinema).
A partir daí, ele tem duas opções: prostituir-se ou suicidar-se. Não obstante, ele decide por um terceiro incluído, ao impor a essa aparente dicotomia uma saída (im)possível. De maneira radical, o protagonista livra-se da civilização – da cidade, de suas roupas, dos carros – e parte para o arrabalde. Na ocasião, a distante praia da Armação, no sul da Ilha, com paisagens desertas, serviu-lhe de abrigo: a beira do mar, ao lado do costão, sem roupas, ele coloca-se em posição fetal e, lentamente, torna-se parte do orgânico.
O pressuposto do filme é da ordem do impossível: morrer para renascer. Não há o happy end, muito menos o seu oposto. O que há é uma aposta, na possibilidade de um renascimento – não sem antes proceder com um corte brutal, com uma morte em civilização – inspirado sobretudo nas idéias existencialistas. É um filme corajoso, sobretudo.

Depoimentos dos realizadores

“O Novelo, poderia se dizer assim, fala de uma crise existencial: o objetivo era mostrar a situação em que estava a civilização naquele momento, AI-5 arrebentando com tudo que havia acontecido em Maio de 1968 na França. O objetivo dele era mostrar a civilização e a crise do sujeito perante a civilização e tudo isso. Então ele fala da derrocada da civilização ocidental que estava acontecendo naquele momento e que não acabou de acontecer ainda, mas tudo bem, daqui a pouco a gente já ultrapassa, não há dúvidas.” (Pedro Bertolino)

“Nós estudávamos cinema mas éramos amadores. Tínhamos a idéia de teoria cinematográfica, mas nunca havíamos feito nada. Não tínhamos dinheiro. Aí o Ady Vieira [produtor] disse: ‘Dinheiro é comigo, trate do resto’. Aí eu falei com o Pedro Bertolino, porque há muitos anos nós éramos amigos, e um tempo atrás ele havia me contado a história de uma sociedade burguesa em que o filho um dia se rebela contra tudo e aí parte para o suicídio. Mas não era um suicídio. Na verdade, era um suicídio existencial.” (Pedro Paulo Souza, sobre o filme Novelo)

“Na verdade, a idéia do curta é uma sugestão para planos, que eu acho que o curta tem esse sentido. A linguagem dele tem que ser mais da poesia do que da prosa. O curta metragem tem que ter a linguagem da poesia e não da prosa e os nossos curtas metragens de hoje tem a linguagem da poesia e não da prosa, prosear em um curta metragem é uma coisa que está andando em cima de um fio, cai o tempo todo. A escola de cinema de curta metragem de da Polônia já dizia isso: o curta tem que ter um sentido e uma forma poética.” (Gilberto Gerlach)

“Porque a idéia de Via-Crucis foi justamente a trajetória de um urbano, não que não seja uma pessoa não identificada, mas uma pessoa comum, que na verdade pode de alguma maneira refletir todos nós, que num determinado momento de sua história pode ser escolhido, como o personagem foi, e sofrer uma determinação que ele não escolhera ou alheia a sua própria vontade. Aí, nesse caso, pelo próprio contexto que a gente vivia na época foi uma tragédia, o cara na verdade foi escolhido pela violência, torturado e morto... a idéia é essa... e a desproteção que todos somos vítimas... estamos a mercê.” (Nelson Machado do Santos)

“O ponto de partida [para o filme Olaria] foi esse: ‘Vamos filmar antes que desapareça’. E, por outro lado, há um elemento trágico, porque é um modo de vida lindo, aquela coisa do artesão, uma pessoa que tem o domínio completo da sua vida. Ele acordava às quatro da manhã, ia lá no meio da baía, pegava o almoço, vinha, já escalava o peixe, deixava o peixe prontinho as seis, seis e meia, começava o trabalho na olaria. Quando chegava meio-dia, as mulheres já faziam o almoço, o cara almoçava e quatro da tarde encerrava.” (Nelson Machado dos Santos).

 

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